Manifesto cultural
Manifesto · 2026
Resumo
Este ensaio-manifesto parte da percepção de que a cultura contemporânea se tornou uniforme e defende a produção deliberada de beleza como resposta. Discute-se a padronização estética descrita por Kyle Chayka e, antes dele, por Adorno e Horkheimer, e contrapõe-se a lógica do engajamento à noção kantiana de prazer desinteressado e à exigência que Ortega y Gasset atribuía à obra de arte. O cinema de Andrei Tarkovski, a defesa de Federico Fellini contra a interrupção comercial dos filmes e a visão livre de convenções proposta por Stan Brakhage são tomados como formas de resistência à pressa. O texto examina ainda o limite da ruptura futurista a partir de Walter Benjamin e termina com compromissos práticos para quem produz qualquer coisa que outras pessoas vão ver.
Palavras-chave: padronização; estética; beleza; cinema; vanguardas.
Imagine an eye unruled by man-made laws of perspective.
Stan Brakhage, Metaphors on Vision
1 Introdução
Cafés de cidades diferentes parecem cada vez mais iguais, e a impressão é de que capas de livro, fachadas e as músicas que tocam enquanto escolhemos outra música seguem o mesmo caminho. Este texto nasce do cansaço de encontrar a mesma coisa em todo lugar e de ouvir que essa uniformidade é o preço da eficiência.
A tese defendida aqui é que a mesmice resulta de escolhas e que é possível escolher de outro modo. O argumento percorre a crítica da padronização, a estética de Kant e de Ortega y Gasset, três cineastas que trataram o olhar como algo a ser protegido e o limite da ruptura proposta pelas vanguardas, antes de chegar a compromissos práticos.
2 A padronização da experiência
Chayka (2016) chamou de AirSpace a semelhança crescente entre cafés e apartamentos alugados por temporada em cidades distantes umas das outras. Anos depois, em Filterworld, o autor atribuiu boa parte dessa uniformidade aos algoritmos de recomendação, que prometem personalização e entregam uma sensação generalizada de mesmice (CHAYKA, 2024).
O mecanismo é simples. O algoritmo aprende com o que já deu certo e devolve mais do mesmo, e quem cria para ser encontrado por ele passa a imitar o que já foi aprovado. O resultado é uma cultura feita para não desagradar ninguém e, por isso, raramente capaz de tocar alguém de verdade.
A denúncia não é nova. Em texto escrito no exílio, em 1944, Adorno e Horkheimer (1985) descreveram a indústria cultural como a produção em série de filmes, canções e revistas que só se distinguiam na superfície. A crítica era dura e por vezes esnobe, mas identificou o essencial: quando a arte vira mercadoria, tende a se parecer com a última que vendeu. O que mudou desde então foi a velocidade. A repetição, que antes dependia de estúdios e editoras, é hoje calculada em tempo real.
3 O belo e a exigência da obra
Na Crítica da faculdade de julgar, publicada originalmente em 1790, Kant (2016) separou o belo do agradável e do bom. O belo agrada sem interesse: não é preciso possuir nem usar aquilo que se julga belo para sentir esse prazer. Kant falou também de uma finalidade sem fim, a impressão de que algo foi feito com propósito mesmo quando não serve a nenhum uso determinado.
Uma métrica de engajamento só enxerga interesse: cliques, tempo de tela, compartilhamentos. Se Kant tem razão, a experiência do belo acontece justamente onde a métrica não alcança, e uma cultura orientada apenas pelo que se mede tende a produzir o agradável com eficiência e o belo quase nunca.
Ortega y Gasset (1925) observou que a arte de vanguarda dividia o público entre os que a entendiam e os que não a entendiam, e que seus autores não pretendiam agradar à maioria. É possível recusar o elitismo dessa leitura e ainda reconhecer o que ela aponta: a obra que importa costuma exigir algo de quem se aproxima. Hoje ocorre o inverso, em escala industrial. Produz-se para ser entendido por todos no primeiro segundo, e quase nada disso permanece na memória no dia seguinte.
4 O cinema contra a pressa
O cinema oferece um contraponto especialmente claro, porque é uma arte feita de tempo. A votação de críticos que a revista Sight and Sound realiza a cada dez anos desde 1952 elegeu em 2022 como melhor filme de todos os tempos Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles, de Chantal Akerman, lançado em 1975 (BRITISH FILM INSTITUTE, 2022). Foi a primeira vez que um filme dirigido por uma mulher chegou ao primeiro lugar. É uma obra de mais de três horas, construída sobre a rotina doméstica de uma mulher, que pede ao espectador exatamente aquilo que o feed evita: paciência.
Tarkovski (1998) definiu o trabalho do cineasta como esculpir o tempo. Assim como o escultor retira do bloco de mármore tudo o que não pertence à figura, o diretor corta de uma massa de tempo feita de fatos vivos aquilo que não é necessário à imagem. A beleza, nessa concepção, depende de duração e de corte, e não de estímulo contínuo. Para Tarkovski, a arte serve para revolver a alma e torná-la capaz do bem, o que dá à beleza uma função moral que nenhuma métrica registra.
Em Andrei Rublev, de 1966, sobre o pintor de ícones do século XV, o filme em preto e branco termina com os ícones em cores, como se a obra só pudesse ser vista depois de todo o tempo que custou.
5 A emoção interrompida
Federico Fellini travou uma disputa pública contra a televisão comercial italiana a partir dos anos 1980. Quando seus filmes, entre eles La dolce vita e Oito e meio, passaram a ser exibidos nas redes de Silvio Berlusconi entrecortados por intervalos publicitários, Fellini cunhou o lema “non si interrompe un’emozione”, não se interrompe uma emoção. O lema foi depois adotado por partidos de esquerda italianos, inclusive na campanha do referendo de 1995 sobre publicidade na televisão (NON..., [s. d.]).
A frase descreve com precisão o que está em jogo hoje. A notificação, o intervalo e o vídeo seguinte que começa sozinho obedecem à mesma lógica, a de cortar a experiência no ponto em que ela começaria a transformar alguém. Defender a obra vista inteira, sem interrupção, é defender a condição mínima para que a beleza aconteça.
6 O olho não domesticado
Stan Brakhage levou essa defesa ao próprio ato de ver. Em Metaphors on Vision, publicado como número especial da revista Film Culture, Brakhage (1963) pede ao leitor que imagine um olho não governado pelas leis da perspectiva, que conheça cada objeto por uma aventura da percepção em vez de responder ao nome das coisas.
No mesmo ano, Brakhage fez Mothlight sem usar câmera. Colou asas de mariposa, sementes, folhas e flores entre duas camadas de fita transparente de 16 milímetros e deixou que a luz do projetor as atravessasse (MOTHLIGHT, [s. d.]). O filme devolve movimento à matéria morta e obriga o olhar a abandonar o reconhecimento automático. É uma lição para qualquer pessoa que produza imagens: antes de aplicar a convenção, vale olhar de novo.
7 Os futuristas e o limite da ruptura
A defesa da ruptura tem, porém, um limite. Marinetti (1909) publicou no Le Figaro o manifesto futurista, no qual afirmava que um carro de corrida era mais belo que a Vitória de Samotrácia e pedia a destruição dos museus. Havia ali uma intuição legítima: a beleza não pertence apenas ao passado, e cada época precisa inventar as próprias formas.
O mesmo manifesto chamava a guerra de única higiene do mundo, e Marinetti se aproximou do fascismo. No ensaio sobre a obra de arte na era da reprodutibilidade técnica, escrito em 1935, Benjamin (1985) cita Marinetti para mostrar aonde conduz a estetização da política, que só encontra sua realização na guerra, e resume o perigo no lema que atribui ao fascismo: “fiat ars, pereat mundus”, faça-se a arte, ainda que o mundo pereça. Dos futuristas convém guardar a coragem de inventar e recusar o desprezo pelo mundo, que os levou a confundir beleza com força.
8 A violência divina da arte
Benjamin (1921) escreveu também sobre uma violência divina, que, ao contrário da violência que cria e conserva o direito, apenas o destrói. A expressão é tomada aqui de empréstimo e deslocada, deliberadamente, para um terreno em que ninguém sai ferido.
A arte possui uma violência própria, dirigida contra o hábito. Uma obra bela interrompe o fluxo automático da atenção, obriga a parar e desfaz por um instante a certeza de que tudo já foi visto, como o olho de Brakhage ou o tempo esculpido de Tarkovski. É uma violência contra a indiferença, nunca contra pessoas.
9 A necessidade da beleza
Em O idiota, Dostoiévski (2009) deixa em suspenso a ideia de que a beleza salvará o mundo. No romance ela surge como pergunta, quase como provocação, e talvez seja melhor assim. A beleza não salva nada sozinha. Uma cidade feia e uma tela feia, porém, ensinam diariamente que ninguém se importou.
O belo é a prova visível de cuidado e não deveria ser privilégio de quem pode pagar por ele. Quando uma época abre mão da beleza em nome da eficiência, empobrece e acostuma as pessoas a esperar pouco.
10 Compromissos
Para quem produz qualquer coisa que outras pessoas vão ver, propõem-se os seguintes compromissos.
- Fazer uma coisa bonita por semana, mesmo pequena, como uma página ou uma frase reescrita até soar certa.
- Projetar para uma pessoa específica, e não para a média de todas.
- Desconfiar do que foi feito para agradar a todos no primeiro segundo.
- Dar tempo às coisas, como quem esculpe, cortando o que sobra em vez de acrescentar estímulo.
- Ver uma obra inteira, sem interrupção, e defender que outras pessoas também possam vê-la assim.
- Olhar de novo antes de aplicar a convenção, como pedia Brakhage.
- Assinar o que se faz, em vez de se esconder atrás da referência da moda.
- Buscar no passado coragem, mais do que fórmulas.
- Tratar a beleza como responsabilidade, porque quem desenha o que os outros veem todos os dias educa o olhar deles, queira ou não.
11 Considerações finais
Este manifesto pede algo simples e difícil: que quem produz alguma coisa volte a perguntar se ela é bonita e aceite refazê-la quando a resposta for negativa. O objetivo é recusar a ideia de que a uniformidade é inevitável, sem a nostalgia de um estilo perdido. Pode-se começar amanhã, com o que estiver à mão.
Referências
- ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
- BENJAMIN, Walter. Zur Kritik der Gewalt. Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik, v. 47, n. 3, p. 809-832, ago. 1921.
- BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. In: BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1985. (Obras escolhidas, v. 1).
- BRAKHAGE, Stan. Metaphors on vision. Film Culture, New York, n. 30, 1963.
- BRITISH FILM INSTITUTE. Revealed: the results of the 2022 Sight and Sound Greatest Films of All Time poll. BFI, London, 2022. Disponível em: https://www.bfi.org.uk/news/revealed-results-2022-sight-sound-greatest-films-all-time-poll. Acesso em: 14 set. 2026.
- CHAYKA, Kyle. Welcome to AirSpace. The Verge, 3 ago. 2016.
- CHAYKA, Kyle. Filterworld: how algorithms flattened culture. New York: Doubleday, 2024.
- DOSTOIÉVSKI, Fiódor. O idiota. Tradução de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2009.
- KANT, Immanuel. Crítica da faculdade de julgar. Tradução de Fernando Costa Mattos. Petrópolis: Vozes; Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2016.
- MARINETTI, Filippo Tommaso. Le futurisme. Le Figaro, Paris, 20 fev. 1909.
- MOTHLIGHT. In: WIKIPEDIA: the free encyclopedia. [S. l.: s. n.], [s. d.]. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Mothlight. Acesso em: 14 set. 2026.
- NON si interrompe un’emozione. In: WIKIPEDIA: l’enciclopedia libera. [S. l.: s. n.], [s. d.]. Disponível em: https://it.wikipedia.org/wiki/Non_si_interrompe_un%27emozione. Acesso em: 14 set. 2026.
- ORTEGA Y GASSET, José. La deshumanización del arte e ideas sobre la novela. Madrid: Revista de Occidente, 1925.
- TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o tempo. Tradução de Jefferson Luiz Camargo. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.