Desejo mimético e usabilidade
Ensaio · 2026
Resumo
Este ensaio discute por que usuários explicam mal os próprios desejos e o que isso implica para a pesquisa e para o design de interfaces. A partir da teoria do desejo mimético de René Girard, argumenta-se que o desejo é transmitido por modelos em vez de nascer no indivíduo, o que ajuda a explicar a baixa confiabilidade dos relatos de motivação. São discutidos experimentos sobre influência social em mercados culturais e em sistemas de avaliação, o papel dessa teoria no investimento de Peter Thiel no Facebook e a difusão de convenções de interface por imitação. Conclui-se que componentes de prova social ajudam a produzir as preferências que exibem, o que dá uma dimensão ética às escolhas de design.
Palavras-chave: desejo mimético; pesquisa com usuários; prova social; usabilidade; René Girard.
Man is the creature who does not know what to desire, and he turns to others in order to make up his mind. We desire what others desire because we imitate their desires.
René Girard
1 Introdução
Em toda entrevista de pesquisa chega o momento em que o participante explica por que quis alguma coisa. A explicação vem bem formulada, faz sentido e é pouco confiável. Norman e Nielsen ([s. d.]) observam, na definição de experiência do usuário adotada pela Nielsen Norman Group, que uma boa experiência vai muito além de dar ao cliente aquilo que ele diz querer.
A leitura habitual dessa observação é psicológica: as pessoas racionalizam depois do fato e descrevem mal os próprios motivos. Este ensaio propõe outra leitura, apoiada na teoria do desejo mimético, e examina suas consequências para a pesquisa com usuários, para os componentes de prova social e para as convenções de interface.
2 O desejo como transmissão
Girard (2009) sustenta que o desejo não é uma propriedade interna do sujeito. Ele se forma na relação com um mediador, alguém cujo desejo indica o que merece ser desejado, e é por meio desse modelo que um objeto adquire valor. Entre a pessoa e aquilo que ela quer há sempre um espelho.
Se essa hipótese estiver correta, o relato do usuário não falha por falta de autoconhecimento. O motivo nunca esteve no interior da pessoa para ser encontrado. Veio de alguém que ela observou, e essa origem raramente fica visível para quem deseja. Quando um participante afirma ter escolhido um aplicativo porque ele é “prático”, descreve o objeto e deixa de fora o modelo que despertou o interesse.
3 Implicações para a pesquisa com usuários
A primeira consequência é metodológica. Perguntar por que alguém quis algo produz justificativas, e justificativas não são dados. É mais produtivo reconstruir o percurso do desejo: quando a pessoa encontrou o objeto pela primeira vez, na companhia de quem e o que essa outra pessoa fazia com ele.
A pergunta se desloca da motivação para a transmissão. No lugar de “por que você usa isso?”, algo como “de quem você se lembra usando isso antes de você?”. As respostas tendem a ser menos elegantes e mais úteis, porque apontam para pessoas e situações concretas e raramente para listas de funcionalidades.
4 Prova social e formação do desejo
A segunda consequência atinge boa parte dos componentes de interface: contadores de curtidas, listas de mais vendidos, rankings, selos de popularidade e avisos de estoque baixo. Esses elementos costumam ser tratados como instrumentos de medição. Na perspectiva girardiana, eles participam da formação do desejo que parecem registrar, porque exibir o desejo alheio é a condição do desejo imitado.
Há evidência experimental nesse sentido. Salganik, Dodds e Watts (2006) criaram um mercado artificial de música no qual mais de 14 mil participantes baixavam canções desconhecidas, com ou sem acesso ao número de downloads anteriores. Quando essa informação era exibida, o sucesso das canções se tornava mais desigual e mais imprevisível. As melhores raramente fracassavam e as piores raramente se destacavam, mas entre esses extremos qualquer resultado era possível.
Em um experimento aleatorizado em um site de notícias social, Muchnik, Aral e Taylor (2013) atribuíram votos iniciais a comentários. Um único voto positivo aumentou em 32% a probabilidade de o voto seguinte também ser positivo, e as avaliações finais desses comentários ficaram 25% mais altas.
5 Da teoria ao investimento
A aplicação mais conhecida dessa teoria ocorreu fora da academia. Peter Thiel teve contato com o pensamento de Girard em Stanford e, em agosto de 2004, tornou-se o primeiro investidor externo do Facebook, ao adquirir 10,2% da empresa por 500 mil dólares (PETER..., [s. d.]). Segundo reportagem do The Globe and Mail (HOW..., [s. d.]), foram as ideias de Girard que chamaram sua atenção para o potencial de uma plataforma movida menos pela troca de informação e mais pelo desejo mimético.
Em uma rede social, cada perfil é ao mesmo tempo sujeito de desejo e modelo para o desejo de outras pessoas, o que talvez explique por que essas plataformas crescem da forma como crescem.
6 Convenções aprendidas por imitação
O desejo mimético alcança também a usabilidade em sentido estrito. Nielsen (2000) formulou o princípio que ficaria conhecido como Lei de Jakob: os usuários passam a maior parte do tempo em outros sites e esperam que o seu funcione da mesma maneira. Aquilo que se costuma chamar de intuitivo raramente é inato. Em geral, é algo que já se viu alguém fazer.
Nada no mundo físico sugere que puxar uma lista para baixo a atualize. O gesto foi criado por Loren Brichter em 2008, no aplicativo Tweetie, e se difundiu pela observação e pela cópia (PULL-TO-REFRESH, [s. d.]). Três linhas empilhadas tampouco significam menu por natureza. Norm Cox desenhou o ícone para o Xerox Star, lançado em 1981, em um espaço de 16 por 16 pixels, imitando a aparência da lista que o menu exibiria (NORM..., [s. d.]).
O ícone nunca teve bom desempenho em testes de descoberta. Pernice e Budiu (2016) mostraram, em estudo com 179 participantes, que esconder a navegação principal reduz quase à metade a chance de encontrá-la, com efeito mais acentuado no computador do que no celular. Ainda assim, ele se tornou onipresente. Prevaleceu pela cópia, e a cópia produziu o que nenhum teste produziria isoladamente: uma expectativa compartilhada sobre o que acontece ao tocá-lo.
7 Considerações finais
A conclusão é menos confortável do que a descrição habitual do trabalho de design. Se o desejo é transmitido, e não descoberto, o designer não se limita a atender necessidades preexistentes. Ele decide quais desejos se tornam visíveis e, com isso, quais modelos as pessoas vão imitar.
Contadores, selos e depoimentos colocam modelos diante de alguém. Esses componentes podem ser legítimos, mas a escolha de quem aparece neles é também uma decisão ética. Parece preferível tomá-la de forma deliberada a descobri-la depois, diante de uma métrica que cresceu por razões alheias ao produto.
Referências
- GIRARD, René. Mentira romântica e verdade romanesca. Tradução de Lília Ledon da Silva. São Paulo: É Realizações, 2009.
- HOW an obscure scholar is shaping the most powerful country on Earth. The Globe and Mail, Toronto, [s. d.]. Disponível em: https://www.theglobeandmail.com/opinion/article-rene-girard-peter-thiel-jd-vance-politics-mimetic-rivalry/. Acesso em: 14 set. 2026.
- MUCHNIK, Lev; ARAL, Sinan; TAYLOR, Sean J. Social influence bias: a randomized experiment. Science, v. 341, n. 6146, p. 647-651, 2013.
- NIELSEN, Jakob. End of web design. Nielsen Norman Group, 22 jul. 2000. Disponível em: https://www.nngroup.com/articles/end-of-web-design/. Acesso em: 14 set. 2026.
- NORM Cox (designer). In: WIKIPEDIA: the free encyclopedia. [S. l.: s. n.], [s. d.]. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Norm_Cox_(designer). Acesso em: 14 set. 2026.
- NORMAN, Don; NIELSEN, Jakob. The definition of user experience (UX). Nielsen Norman Group, [s. d.]. Disponível em: https://www.nngroup.com/articles/definition-user-experience/. Acesso em: 14 set. 2026.
- PERNICE, Kara; BUDIU, Raluca. Hamburger menus and hidden navigation hurt UX metrics. Nielsen Norman Group, 26 jun. 2016. Disponível em: https://www.nngroup.com/articles/hamburger-menus/. Acesso em: 14 set. 2026.
- PETER Thiel. In: WIKIPEDIA: the free encyclopedia. [S. l.: s. n.], [s. d.]. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Peter_Thiel. Acesso em: 14 set. 2026.
- PULL-TO-REFRESH. In: WIKIPEDIA: the free encyclopedia. [S. l.: s. n.], [s. d.]. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Pull-to-refresh. Acesso em: 14 set. 2026.
- SALGANIK, Matthew J.; DODDS, Peter Sheridan; WATTS, Duncan J. Experimental study of inequality and unpredictability in an artificial cultural market. Science, v. 311, n. 5762, p. 854-856, 2006.